Caso clínico

22 de outubro de 2018

Mulher de 49 anos foi admitida no Hospital Universitário de Brasília depois de um mês com ascite e diarreia, com perda ponderal. A paciente havia recebido diagnóstico de lúpus eritematoso sistêmico em 2003, com base em manifestações cutâneas, articulares, hematológicas e imunológicas, havendo também derrame pleural na evolução. Fazia uso de hidroxicloroquina 400mg/dia, mas o acompanhamento era irregular.

Na admissão, encontrava-se emagrecida, hipocorada, com edema de membros inferiores e sinais de ascite volumosa. Havia linfonodos fibroelásticos e indolores em região axilar e inguinal. A análise do líquido ascítico revelou exsudato, com PCR para BK e pesquisa de células oncóticas negativas.

A dosagem de CA-125 era elevada (312,8 UI/mL). A TC de abdome com contraste evidenciou ascite volumosa (Figura 1), hidronefrose bilateral (Figura 2), espessamento peritoneal nodulariforme, espessamento parietal gástrico, vesical e de alças intestinais (Figuras 1 e 3), assim como linfadenomegalia. A investigação para malignidade com endoscopia digestiva alta e baixa, endossonografia, cistoscopia, mamografia e laparoscopia resultou negativa.

Após exclusão de neoplasia e de tuberculose, foi diagnosticado peritonite lúpica e prescrito pulsoterapia com metilprednisolona e ciclofosfamida. Não houve resposta ao tratamento e a paciente cursou com desnutrição grave. Um mês após o início da terapêutica, a paciente foi admitida com insuficiência respiratória e abdome agudo. A laparotomia de urgência revelou porção de ílio isquêmico e grande quantidade de material fecaloide na cavidade abdominal, sendo feita enterectomia de 50 cm. A paciente foi a óbito no pós-operatório.

O caso exemplifica a potencial gravidade e refratariedade da peritonite lúpica, que em alguns casos pode apresentar características clínicas, laboratoriais e de imagem que confundem com neoplasia maligna.

Figura 1. TC evidenciando ascite volumosa (asterisco) com espessamento da parede das alças intestinais (seta).

Fonte: Arquivos pessoais dos autores

Figura 2. TC com contraste evidenciando hidronefrose volumosa bilateral (asterisco).

Fonte: Arquivos pessoais dos autores

Figura 3. TC com contraste evidenciando espessamento irregular da parede gástrica (seta).

Fonte: Arquivos pessoais dos autores

 


 

Autores: Cezar Kozak Simaan, Andressa Junqueira Osorio, Luciana Teófilo Lourençoni, Isabela de Sousa Russo, Tassiane Raquel Cunha Martins de Moraes.

Serviço de Reumatologia do Hospital Universitário de Brasília HUB

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