O efeito Mozart na Reumatologia

3 de novembro de 2018

“Os humanos distinguem-se de todos os outros seres vivos por criar uma coleção espetacular de objetos, práticas e ideias conhecidas coletivamente como cultura”1. Ela inclui a música.

Revendo a interação entre atividade profissional e cultura e arte, o médico/escritor Álvaro Souza identificou 37 médicos famosos2. Um dos personagens biografados foi o vienense Theodor Billroth (1829-1894). Em 1873, o virtuoso Johannes Brahms dedicou duas músicas (quartetos de cordas – Opus 51) a esse ilustre cirurgião e parceiro musical. Essas obras ficaram conhecidas como quartetos Billroth I e II. Um dos aforismas elaborados por Billroth foi: “a música enobrece e exalta o homem como nenhuma outra arte”.

Alguns profissionais utilizam-se de um ambiente musical para melhorar a sua performance profissional. O neurocirurgião/escritor Paul Kalanithi usava música para aprimorar a sua concentração no centro cirúrgico3.- “Quando eu estava no comando, em vez da música pop que todos gostavam de ouvir na sala de cirurgia, só tocava bossa nova. Pus Getz/Gilberto4 no som e nos arranjos suaves e melodiosos do saxofone começaram a encher a sala”.

Há cerca de trinta mil anos os humanos já tinham um cérebro musical, existindo evidências de que utilizavam instrumentos de sopro ou percussão primitivos5. A soprana/neurocientista Viviane Rocha destacou que ”muito do que se sabe sobre estruturas cerebrais e música advém de estudos com pacientes que sofreram lesões cerebrais”6. O uso de tecnologias que permitem visualizar o cérebro enquanto as pessoas ouvem, compõem uma música ou tocam um instrumento possibilitou mapear a conexão entre o córtex auditivo e o sistema límbico, responsável pela percepção de emoções evocadas por música.

Koelsch propôs a teoria do quarteto das emoções humanas para explicar o efeito das emoções evocadas por música7. Utilizando neuroimagem funcional e captação elétrica da atividade cerebral, foi possível identificar áreas específicas corticais, diencefálicas, hipocampo e no tronco cerebral. O conjunto de efeitos da música parece estar associado à redução emocional do estresse e controle da dor e envolve diversos neurotransmissores/hormônios, tais como a ß-endorfina e o cortisol8.

Recentemente, Wallmark e colsanalisaram a atividade neural de voluntários e identificaram que os indivíduos com maior empatia têm os circuitos cognitivos relacionados à sociabilidade e ao prazer mais ativados quando escutam música9. Eles sugerem que a evocação da música pode desencadear os mesmos processos sociais que ocorrem no cérebro durante as interações sociais humanas mais complexas.

Oliver Sacks, renomado neurologista/escritor, observou que “nos quadros de distúrbios cognitivos o efeito da música pode auxiliar como terapêutica adjuvante. As vezes a musicoterapia é em grupo, às vezes individual. É assombroso ver indivíduos mudos, isolados, confusos animarem-se com a música, reconhecê-la como familiar e começar a cantar, começar a formar um vínculo com o terapêuta”10.

Efeito terapêutico da música na reumatologia

A primeira revisão sistemática sobre o efeito terapêutico da música na reumatologia foi realizada por Selvendran e cols11, indicando melhora dos sintomas na osteoartrite e na fibromialgia em quatro estudos. Pacientes que escutavam música quatro vezes por semana, durante quatro semanas, tiveram benefícios, como tratamento adjuvante na redução dos sintomas da osteoartrite das mãos. Houve redução da dor e melhorou a funcionalidade das mãos. Essa melhora ocorreu tanto entre os pacientes que tocavam teclado musical como entre os que só ouviam música.

A primeira descrição do efeito Mozart foi feita por Rauscher e cols12 na Universidade da Califórnia. Voluntários saudáveis foram avaliados antes e depois de ouvir as sonatas para piano em D maior, K448, de Wolfgand Amadeus Mozart. Esse estudo avaliou os efeitos da audição da música nas capacidades espaciais, focando nas correlações entre música e raciocínio espacial-temporal. Esse efeito foi avaliado em outros 133 artigos identificados no PubMed13, com resultados ambíguos para o tratamento da epilepsia, redução de estresse, melhora do desempenho cognitivo e outras condições médicas.

Os resultados conflitantes refletem a presença de vieses metodológicos nos modelos epidemiológicos e/ou nos desenhos metodológicos empregados nas avaliações. Contudo, existem perspectivas no uso da musicoterapia, que é uma terapêutica de baixo custo e não invasiva.

Perspectivas

O neurocientista António Damásio cita o poeta português Fernando Pessoa, no seu livro O desassossego, para analisar a complexidade da origem das emoções: “Não sei que instrumentos tange e range, cordas e harpas, tímbares e tambores, dentro de mim”. Ele concluiu que “A música é um poderoso indutor de sentimentos e os humanos gravitam para certos sons instrumentais, modos, tons e composições que produzem estados afetivos gratificantes. Existem dois grupos de instrumentos na orquestra de Fernando Pessoa. Primeiro, os principais, os mecanismos sensitivos, através dos quais o mundo ao redor e no interior de um organismo interage com o sistema nervoso. Segundo, os mecanismos que respondem emotivamente, de modo contínuo, à presença mental de qualquer objeto ou evento….. Esses dispositivos são conhecidos como impulsos, motivações e emoções.”1

A melhor compreensão dos mecanismos neurofisiológicos, ajustes metodológicos, adequação dos múltiplos efeitos da música como estilo, volume e preferências musicais, possibilitarão o uso adequado dessa terapêutica complementar nas doenças reumatológicas.

Enquanto aguardamos os resultados, podemos reviver alguns momentos inesquecíveis do XXXIII Congresso Brasileiro de Reumatologia, ocorrido em Brasília, em 2016. Nessa ocasião, tivemos a oportunidade de ouvir o Dr. Wilton dos Santos, reumatologista/barítiono/pintor, junto com o coral da UnB, numa interpretação magistral do Tempo Perdido, da Legião Urbana, composta pelo poeta/músico Renato Russo (Figura 1). Vale a pena conferir!

Figura 1. Coral da UnB na abertura do XXXIII Congresso Brasileiro de Reumatologia, Brasília, 2016.

Fonte:  <http://www.espondilitebrasil.com.br/aconteceu-em-agosto-o-xxxiii-congresso-brasileiro-de-reumatologia>

Referências:

1. DAMÁSIO, A. A estranha ordem das coisas: as origens biológicas dos sentimentos e da cultura. 1ª ed., São Paulo: Companhia da Letras, 2018

2. SOUZA, A. Grandes médicos & grandes artistas. Nomes que deram vida à medicina e às artes. 1. ed. Salvador, Bahia, 2006.

3. KALANITHI, P. O último sopro de vida. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2016.

4. JOBIM, A. C.; MORAES, V. de. Garota de Ipanema. Arranjo: GETZ, S; GILBERTO, J. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=otGz6hz-AXo>. Aces em: 13 ago. 2018.

5. WEIMBERGER, N. M. Music and the brain. Scientific American, v. 16, p. 36-43, 2006.

6. ROCHA, V. C; BOGGIO, O. S. A música por uma óptica neurocientífica. Per Musi, Belo Horizonte, v. 27, p. 132-140, 2013.

7. KOELSCH, S. Investigating the neural encoding of emotion with music. Neuron, V. 98, p. 1075-1079, 2018..

8. CHANDA, M. L; LEVITIN, D. J; The neurochemistry of music. Trends in Cognitive Sciences, v. 17, p. 179-193, 2013.

9. WALLMARK, Z; DEBLIECK, C; LACOBINI, M. Neurophysiological effects of trait empathy in music listening. Front. Behav. Neurosci., 2018. (DOI: 10.3389/FNBEH.2018.00066) [Epub ahead of print]

10. SACKS, O. Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

11. SELVENDRAN, S. et al. Pirouetting away the pain with music. Journal of Clinical Rheumatology, V. 21, p. 263-266, 2015.

12.  RAUSCHER, F. H.; SHAW, G.L; KY K. N. Music and spatial task performance. Nature, v. 365, p. 611, 1993.

13. BEST matches for Mozart effect. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=mozart+effect>. Acesso em: 13 ago. 2018.


Autor(a):

Dr. Leopoldo Luiz dos Santos Neto

– Medicina Interna
– Programa de pós-graduação em Ciências Médicas
– Faculdade de Medicina – UnB

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