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CAPITA L REUMATO
ANNA BEATRIz ASSAD MAIA
Médica reumatologista titulada da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR)
Diretora Científica do Festival ATUARTE, membro das Comissões de Defesa Profissional e
Reumatologia Ocupacional da SBR
Primeira Secretária da Sociedade de Reumatologia de Brasília
Pós-graduada em Psicodinâmica do Trabalho pela UnB, Perícia Médica e Acupuntura
Médica voluntária do Hospital Universitário de Brasília
Festival Atuarte 2021,
o ano da colheita
da palavra
A narrativa pessoal é o fio formado pelos significantes da vida de cada um de nós. A maneira como
tecemos nosso discurso nos constitui e afirma nossa singularidade no mundo.
A legenda cuidadosamente colocada por nós no filme da memória diz mais a respeito do que os fatos que a
integram. a costura das histórias, o entremeio que une cada evento para formar a tessitura da vida é único e
indissociável de quem somos e de como nos colocamos diante do real.
A vida pós-moderna sofreu transformações radicais nos últimos 30 anos. O surgimento das redes
sociais acarretou o desfazimento das verdadeiras narrativas pessoais ao privilegiar o surgimento do “avatar
virtual’’. o ser humano atual encontra-se, e perde-se, amalgamado àquele que brilha triunfante nas redes
sociais. Quem é você e qual sua história deixou de ser uma pergunta banal, se é que o foi algum dia.
Talvez nunca tenha sido tão urgente resgatar a singularidade do sujeito para que este não se liquefaça
na fluidez das redes sociais. Diz-nos Bauman “Fluidez” é a qualidade de líquidos e gases. (…) Os líquidos,
diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade. (…) Os fluidos se movem facilmente. Eles
“fluem”, “escorrem”, “esvaem-se”... “ 1
Há que se “humanizar o humano”. Dar vida, corpo e importância às narrativas, bem como decodificá-
las, tornou-se vital para a existência, tal como o ar que respiramos.
As discussões sobre a necessidade de humanização do atendimento em saúde datam da década de 70. No
Brasil essa política tomou corpo com a criação, em 2003, do programa HumanizaSUS. São suas diretrizes: o
acolhimento, a gestão participativa, o cuidado com a ambiência e a clínica ampliada e compartilhada.
O ATUARTE 2021 escolheu uma diretriz do HumanizaSUS como foco: a clínica ampliada e compartilhada,
assim definida: «A clínica ampliada é uma ferramenta teórica e prática cuja finalidade é contribuir para
uma abordagem clínica do adoecimento e do sofrimento, que considere a singularidade do sujeito e a
complexidade do processo saúde/doença. Permite o enfrentamento da fragmentação do conhecimento e
das ações de saúde e seus respectivos danos e ineficácia.” 2
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